
Sentou-se na beirada da varanda de taco. O céu havia se fechado como se anunciasse que em breve nevaria como nunca... E como ansiava por aquele frio.
Elevou as pernas abraçando-as de forma que seu queixo ficasse sobre os braços enquanto seus olhos observavam a lenta transformação do tempo. O chão já estava coberto pelo branco gélido quando os primeiros cristais voltaram a cair. A imagem começava a se transformar, o jardim antes estático, agora era golpeado pelas plumas que insistiam em cair cada vez mais rápido do céu. Não havia ali espaço para outra cor, a não ser o branco intenso, nem sempre puro, da neve. E se não fosse por aquele que chegava, ela teria certeza disso...
Olhou como sempre fazia: apreciando-o. Era como se ele não existisse. Fosse apenas um sonho que vinha de tempos em tempos para lhe lembrar... do que mesmo? Não importa. Ele vinha. E chocava a neve com as mesmas roupas básicas em tom de cinza e preto e os olhos... eram tudo. Parecia que a neve não conseguia atingi-lo enquanto passava pelo grande jardim, descalço e... quem sabe, descontraído? Não. Obcecado. Era como ele a olhava.
Aproximou-se cada vez mais. Era como se dissesse a paisagem que ficava cada vez mais violenta a sua frente: Afaste-se... não vê? Há algo que eu quero alcançar. - e em seus devaneios, se é que aquilo era possível, ela podia ver a neve abrindo caminho perante os pés do rapaz. Estremeceu por um breve momento, mas teve forças para levantar e se postar naquela posição de
"bem vindo de volta", mas sabia que na verdade queria dizer
"não me deixe nunca mais". E agora faltava menos de dois metros para ele alcançar a escada da varanda...
Por um momento teve a certeza que a paisagem havia se desfeito, não havia mais nada além depois que ele passava, era como se ele levasse consigo tudo o que tocasse...
"Então me leve com você".
Cruzou as mãos atrás das costas, e deu dois... três... quatro passos? Ele havia subido o pequeno lance de escadas e agora ela estava de frente para aqueles orbes avermelhados. E nesse momento ela esqueceu de tudo: o que havia feito ontem? O que comeu? Qual foi mesmo aquela noticia da TV? E o trabalho pendente da faculdade? Será que meu coração ainda está batendo? Eu realmente... estou aqui?
Abraçou-a. Foi o fim.
- Você se lembra daquela foto nossa? A única que nós temos? Eu havia insistido tanto para que você tirasse...
- Hn...
- Eu tinha... hn.. quatorze? Quinze?
-Treze.
- Ah... - sempre exato - era mesmo, treze.
- . . .
- Estava pensando... quando vamos tirar uma foto dessas novamente...
- . . .
- Não que eu faça questão, é só que.. gosto de lembrar.
- . . .
- Bom, eu... vou indo. Você... - fale alguma coisa - er.. .. ... Tchau.
- Hn..
- . . . - saia logo.. rápido -
- Você.
- Hã??? - surpresa demais, droga! - Eu, o que?
- Minha lembrança.
- Eu...
- Não preciso de mais nada.
- . . . - não se espante, sorria, ande! Droga... -
- . . . Não ia.. sair?
- Não sei se quero mais.
- Não vá.
- Porque?
- Só.. não vá.
- Você não quer que eu vá?
- Fique.
- Mas...
- Eu deveria implorar agora?
- Seria interessante.
- . . .
- Tchau, K.
Sua cabeça rodava. E ela podia jurar que aquele abraço estava atravessando seculos. Estava tão quente apesar do frio ao seu redor, era o que se podia esperar de um humano, afinal. Sentia os lábios dele murmurarem em seu ouvido, o ar quente e tão conhecido assim.. tão perto, mas por algum motivo não conseguiu decifrar aquele idioma, seria o mesmo que o dela? Ela havia perdido a capacidade de entender e interpretar? Mais que coisa... estranha...
Não precisava de lembranças, porque já possuía o seu passado, presente e futuro nas mãos.
-
Tadaima.-
Okaeri.
|Para ver postagens antigas, clique no mês e volte para página de postagem.|